A Raia Histórica participou, no passado dia 12 de agosto, na sessão «Turismo, Identidade e Território», integrada nas Talks São Bartolomeu, no Pavilhão Multiusos de Trancoso. À conversa, estiveram quatro mulheres que fizeram deste território o seu projeto de vida e de negócio.

Foi uma conversa sem retórica. Ao longo de perto de uma hora, as quatro convidadas partilharam percursos pessoais e empresariais que têm em comum uma característica pouco frequente: a profissionalização crescente da atividade turística convive, aqui, com um apego emocional evidente ao território e com um orgulho declarado nos seus recursos e no seu património.

O retrato que emergiu contraria algumas ideias feitas sobre o Interior. A procura turística é elevada. Existe uma vasta gama de nichos por explorar: segmentos específicos, com motivações próprias, que hoje encontram nesta região respostas apenas parciais. E, talvez o dado mais surpreendente da tarde, o inverno revelou-se uma época de forte atratividade junto de públicos estrangeiros, invertendo a leitura habitual da sazonalidade como problema sem solução.

Estruturar o destino

Dalila Dias, Coordenadora Executiva das Aldeias Históricas de Portugal, apresentou o trabalho hercúleo de profissionalizar a oferta de um destino que reúne doze aldeias em dez municípios. Descreveu a construção de canais de comercialização com empresas de gestão de destino e operadores turísticos, num posicionamento orientado para a captação de turistas de elevado valor acrescentado, caminho que impõe maior exigência a montante, junto de quem opera no terreno.

Atender é conhecer

Daniela Aguiar, da Mercearia do Fradinho, trouxe a perspetiva de quem não opera alojamento mas serve quem cá dorme. Com uma longa experiência em atendimento ao turista, sublinhou o valor do apoio personalizado, tanto a grupos como a viajantes individuais, e a importância da capacidade de estabelecer parcerias para propor serviços diferenciados. É um negócio que nasceu da leitura atenta de um vazio na cadeia de valor local.

Um sonho com posicionamento

Catarina Dourado, do Brasão Dourado Turismo, em Pinhel, descreveu a concretização de um sonho assente num posicionamento muito claro. Falou da preocupação em reabilitar o património com versatilidade suficiente para proporcionar serviços que vão muito além do alojamento, e revelou-se particularmente sensível à articulação em rede como forma de garantir ao cliente uma oferta diversificada.

A hospitalidade genuína

Luísa Capelão, das Figuras Mágicas de Trancoso, partilhou uma experiência de apenas um ano de atividade que já mostra sinais de grande êxito, com hóspedes vindos de todos os continentes. A tónica da sua intervenção foi a experiência e o acolhimento: receber o hóspede quase como um amigo da casa. A isso juntou uma procura incessante de fazer sempre melhor. Os «miminhos» que oferece são, hoje, aquilo que os seus hóspedes mais destacam.

Uma conversa franca

Foi uma conversa franca, em que se falou de números e de dificuldades com a mesma naturalidade com que se falou de paixão pelo território. Ficou claro que o turismo desta região não vive de um único produto nem de um único perfil de visitante, e que o maior espaço de crescimento está menos nas camas e mais naquilo que se oferece a quem já cá está: nas razões para ficar mais uma noite, nos serviços que ainda não existem, nas parcerias que ainda não foram feitas.

O eclipse encurtou o tempo que tínhamos para esta sessão mas não a vontade de continuar a conversa.

A Raia Histórica agradece ao Município de Trancoso e à AENEBEIRA o convite para moderar esta sessão, e às quatro convidadas a disponibilidade e a abertura com que partilharam os seus percursos.